27 Maio 2009

Missão...

A região de Nürnberg aqui na Franconia é a segunda maior região metropolitana da Baviera. Ao mesmo tempo constitui-se num núcleo evangélico luterano num contexto marcadamente católico romano.

No dia 26.05 aconteceu na Igreja St. Sebald, uma das igrejas do centro urbano antigo de Nürnberg, uma celebração anual para a qual são convidadas pessoas que de alguma forma têm protagonismo na vida eclesiástica, ecumênica, política, social...Trata-se do “Encontro Anual de Pentecostes”. É uma forma da igreja se apresentar à público e congregar num evento eclesiástico lideranças formadoras de opinião de diferentes perfis (obreiros e presbíteros), incluindo grupos e pessoas parceiras do cenário ecumênico.

O palestrante da noite foi o bispo Dr. Wolfgang Huber, presidente do conselho da Igreja Evangélica da Alemanha, autoridade máxima da EKD e de certa forma o seu “rosto” e sua voz na vida pública. Foi uma palestra significativa, sobretudo por enfocar um tema que ainda soa estranho no contexto alemão: missão. Soa estranho porque normalmente muitos alemães tem um conflito significativo com o conceito. Mesmo o bispo Huber não pode deixar de incluir em suas palavras introdutórias a lembrança de que o conceito missão vem carregado negativamente por uma história de missão colonizadora (acenando assim aos críticos do uso do termo, que sabe das restrições que alguns lhe aplicam). E esse é normalmente o motivo pelo qual se tem dificuladade em falar de missão por aqui. Pelo menos com esta justificativa. Durante a sua palestra tive muitas vezes a impressão de ouvir um eco forte do hemisfério sul... Não só do Brasil, mas também da África, da Ásia, da América Latina como um todo.

A igreja evangélica alemã carrega marcas fortíssimas de sua história secular, emoldurada por disputas acirradas tanto no campo dos debates teológicos como nos campos de batalha. Além disso, marcada pelo processo de secularização do passado. Não por último, nos últimos tempos pelo processo de diálogo interreligioso que destaca veementemente a necessidade da tolerância como caminho de convivência pacífica. Como sobreviver em um contexto no qual a aceitação da mensagem cristã e a razão de ser da existência da Igreja são colocados “contra a parede”?

O bispo Huber não quis tratar de temas negativos relacionados ao quadro atual, em boa medida preocupante para a igreja da Alemanha. Ele preferiu enfatizar a perspectiva futura da igreja, a qual depende – assim suas palavras – de ação missionária e evangelizadora! Relembrando momentos históricos importantes na caminhada da Igreja na Alemanha nas últimas décadas, reportou-se a uma palestra do teólogo Eberhard Jüngel, de 1999: ou o coração da igreja continua batendo ao ritmo de missão e evangelização, ou entra em processo de arritmia. Não cabe à Igreja, assim Huber, limitar-se a ser um departamento estatal para o zelo dos bons costumes. A Igreja é mais!

De minha parte faço agora uma associação com a IECLB e posso reafirmar: por ser de Deus, que missão seja nossa paixão!

19 Maio 2009

1 centavo











Eu e os meus colegas aqui no trabalho não vamos para casa para almoçar. Normalmente cada um leva algo junto para o lanche do meio dia (sanduíche, frutas...). Muitas vezes também não... Daí a solução é dar uma saída e buscar algo no açougue (!) ou na lancheria e buscar um dönner ou uma pizza turca ou um durüm. No açougue pode-se buscar um Schnitzel, um pote com salada, uma Bratwurst ou Leberkäse - sempre, é claro, acompanhado por pão. Ou um Belegtes Brötchen (sanduiche). Sempre delicioso, diga-se de passagem. Às vezes eu busco algo para um/a ou outro/a colega que também quer algo. Outras vezes trazem para mim. Daí a gente senta na mesa da biblioteca e “almoça” em conjunto.

Um dia alguém trouxe algo para mim e minha conta foi de 1,69 Euros. Depois do almoço eu entreguei 1,70 Euros, agradeci e ia seguindo para o “meu canto” de trabalho quando alguém disse que tinha a moeda de 1 Cent pra me devolver de troco. Eu disse que não precisava. Diante do olhar perplexo e da insistência acrescentei como argumento tipicamente brasileiro, que esse 1 Cent não ia me tornar mais pobre. Recebi como resposta (antes tivesse ficado quieto...): “pois é, e eu não vou ficar mais rica!”. Bingo! Isso também está certo. Quer dizer, estavámos diente de uma mesma verdade interpretada de duas formas beeeeem diferentes! Confesso que num primeiro momento esse incidente intercultural me irritou: exagero de precisão tipicamente alemão: é no centavo! E prá eles deve ter soado estranha a minha indignação acerca desta – pra mim – estreiteza, afinal brasileiro de modo geral não se acostumou a dar muita bola para moeda de 1 Cent. Além do mais era sinal de desprendimento, de “espontaneidade”.

Neste pequeno e quase irrelevante incidente revelou-se um zelo profundo por parte de quem sabe do valor do dinheiro: é de centavo em centavo que se faz o Euro, o Dólar, o Real... Mas nem era tanto essa a questão. Entrementes já estava claro para nós que eu não ia ficar mais pobre e ela não ia ficar mais rica... Era antes uma idéia clara e precisa (dela) de que eu tinha direito ao meu 1 Cent de troco e de que era dever dela devolvê-lo a mim! Ética cotidiana!

Isso me lembrou outra situação no Brasil, nas férias. Fui quase que diariamente a um determinado supermercado durante uma semana, lá no oeste de SC. Cada vez me ficavam devendo 2, 3 centavos. Na última vez queriam me dar balas. Aí reclamei. Eu tinha feito a conta: não é nada, não é nada, no transcorrer de um ano, na média de 3 centavos por dia, cinco dias por semana, isso dá 7,20 Reais por ano. É pouco. Mas dá um quilo de alguma coisa... e além disso não pertence ao Supermercado...

Eu sempre fui de valorizar o dinheiro que me é dado administrar. Aprendi com a bíblia acerca da importância de ser fiel no pouco... Mas reconheço que fui influenciado pela constante desvalorização do dinheiro brasileiro e não me tornei fanático por centavos. Mas para os alemães, que ainda carregam fortemente no (in)consciente coletivo as marcas do pós-guerra, centavo é dinheiro. Se for meu, é meu direito. Se for teu, é teu direito. E é dever devolvê-lo. Lógica complexa. Por um lado imprescindível para a construção ética e correta de uma sociedade em que a corrupção é mantida sob controle. Por outro lado uma ética de trabalho, de direitos e deveres que suplanta a informalidade, a espontaneidade, em que tudo precisa ser regulado com exatidão absoluta. Aí acaba sendo sufocado o espaço da graça... Porém, justiça seja feita, aqui na Alemanha eu raramente preciso me preocupar em controlar meu troco. Sempre está exato no centavo!

Dia desses aconteceu de novo... Meu lanche custou 1,39 Euros (Brötchen mit Leberkäse). Paguei 1,40. Minha colega aceitou, sem discutir... Amanhã já vai estar esquecido mesmo... Não será problema para nós. Problema é o que se faz no Brasil e outros lugares mundo afora, onde a troca de favores não é de 1 Cent em esfera privada por causa do lanche, mas onde os escândalos milionários promovidos sobretudo por políticos corruptos vai à casa dos milhões na esfera pública e com isso literalmente acabam provocando por tabela a morte de muita gente que fica sem acesso a hospital ou a comida (merenda escolar, etc...).

Portanto, saber valorizar o centavo (não cada um somente o seu, mas o do outro!!!) pode, sim, ajudar na construção de um caminho para justiça e equilíbrio social! A César o que é de César. Ao povo o que é do povo!

21 Outubro 2008

ou to no


eu tô no ou to no

estamos outonando!
as folhas flutuam ao vento
e entoam seus tons caídos.

ou-ton-am...
dão tons
de cores, de sons.

eu? tô no
batente outonal.

ou tô no
trânsito sazonal?

ih! uma folha
outonou na janela...
e me resgatou

do transe...

18 Setembro 2008

Até o fim.


Até o fim

Não, não pares.
É graça divina
começar bem.
Graça maior,
Persistir na caminhada certa
manter o ritmo...
Mas a graça das graças
é não desistir.
Podendo ou não podendo
caindo, embora, aos pedaços,
chegar até o fim.

Dom Hélder Câmara
Anuário Evangélico 2003, p. 38.